A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de condenar a bolsonarista Débora Rodrigues dos Santos a 14 anos de prisão gerou uma grande reação nas redes sociais. Várias pessoas começaram a compartilhar a hashtag #TodasSomosDebora em apoio à cabeleireira, que foi presa durante as depredações de 8 de janeiro de 2023.
A campanha pediu que as pessoas postassem imagens suas segurando um batom, como forma de protesto contra o julgamento no STF. Débora, mãe de dois filhos, foi condenada após escrever com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua da Justiça, entre outros atos de vandalismo cometidos por ela.
Interessante é o paralelo que a Revista Sociedade Militar traça entre o caso de Débora Rodrigues dos Santos e o de Jacinta Velloso Passos, uma baiana que também foi presa por pichação de patrimônio. Assim como Débora, Jacinta era esposa e mãe de uma criança. Ela foi detida em 1964, durante o regime militar, pelo ato de pichar um muro com mensagens de protesto contra o regime. Porém, a história de Jacinta Velloso Passos se desdobrou de forma muito mais trágica.
Jacinta Velloso Passos: A repressão política e a prisão no regime militar
Jacinta, natural da Bahia e formada em pedagogia, foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1944. No início dos anos 1960, ela se mudou para Sergipe e passou a ser uma militante avulsa, longe da estrutura organizada do partido. Porém, sua luta política acabou a levando a um destino cruel. Após ser presa por pichar um muro em Aracaju com mensagens contra o regime militar, Jacinta foi submetida a uma tortura psicológica no contexto da repressão política da ditadura.
Ela foi internada forçadamente em um hospital psiquiátrico, onde passou nove anos encarcerada como doente mental, sendo na verdade uma prisioneira política. No prontuário médico, o diagnóstico dizia: “desde 1944, é comunista”. A repressão ao seu ativismo a levou a um ciclo de torturas, incluindo eletrochoques, e a uma vida isolada em um quarto, distante dos outros pacientes.
O fim trágico de Jacinta Velloso Passos: prisão, morte e legado
Jacinta morreu em 1973, aos 57 anos, após passar anos internada e sofrendo tratamentos cruéis. A causa do óbito foi registrada como “derrame cerebral”, mas a sua trajetória trágica é um reflexo das brutalidades sofridas por aqueles que ousaram desafiar a ditadura. Ela faleceu no Hospital Psiquiátrico Santa Maria, em Aracaju, e deixou uma vasta produção literária, incluindo “Os Cadernos do Sanatório”.
Seu legado, no entanto, não está apenas na sua produção literária, mas também na memória de sua luta contra a opressão. Jacinta Passos deixou uma filha, a historiadora Janaína Amado, que carrega o nome de uma mulher que, além de ser uma militante política, foi vítima da repressão de um regime que tratava opositores como inimigos a serem destruídos.
A luta de Débora e Jacinta: duas mulheres, duas histórias
Embora as histórias de Débora Rodrigues dos Santos e Jacinta Velloso Passos compartilhem o fato de que ambas foram presas por pichação, a diferença entre elas está nas circunstâncias. Jacinta foi vítima de um regime militar que não hesitava em tratar dissidentes como inimigos, colocando-os sob repressão política e tratamento desumano. Lutou contra a tirania, pela democracia. Já Débora enfrenta a Justiça por tentar destruir a democracia através de um golpe de estado em nome de um capitão delinquente.