A Pedra do Ingá, também conhecida como Itacoatiara, é um dos mais intrigantes monumentos arqueológicos do Brasil. O sítio arqueológico famoso em todo o País por suas enigmáticas inscrições, esconde segredos milenares e se transformou em um dos tesouros arqueológicos do Brasil. Conhecido internacionalmente, o sítio figura entre os cinco maiores do país e, consequentemente, atrai turistas, pesquisadores e entusiastas do mistério em busca de respostas sobre suas intrigantes inscrições rupestres.
Localizada no município de Ingá, no Agreste da Paraíba, a cerca de 109 km de João Pessoa e 38 km de Campina Grande, esta formação rochosa em gnaisse cobre uma área de aproximadamente 24 metros quadrados de largura, coberto por símbolos que desafiam o tempo. Seu principal painel vertical mede cerca de 46 metros de comprimento por 3,8 metros de altura e está repleto de inscrições rupestres em baixo-relevo, cujos significados permanecem desconhecidos até hoje.
São milhares de símbolos complexos. Figuras humanas. Animais estranhos e constelações perfeitamente desenhadas que impressionam.
O maior mistério, está na origem e quem deixou essas marcas. Os registros, esculpidos há milhares de anos, continuam sendo objeto de estudo e debate entre cientistas, arqueólogos, astrônomos e até ufólogos, que, por sua vez, tentam decifrar seu significado do enorme paredão de pedra. Estimativas apontam que os desenhos foram gravados há pelo menos 6 mil anos direto na pedra.
Esta semana, o PB Agora conversou por telefone com o paleontólogo e arqueólogo Juvandi de Souza Santos, que há anos realiza pesquisa nas Itacoatiara, tendo inclusive livro escrito como fruto de sua pesquisa sobre o sítio. Direto de Santiago de Compostela na Espanha, onde se encontra em viagem, Juvandi de Souza Santos destacou a importância do sítio, defendeu a sua preservação e deu algumas pistas para a provável origem das descrições enigmáticas.
Enfático, ele garantiu que se trata de um dos sítios mais importantes do mundo daquela tipologia, justamente, por ser um sítio arqueológico, ele recebe um tombamento nacional, é o artigo 216 da Constituição Federal. E, desde muito tempo, não só Itacoatiara do Ingá, mas outros sítios próximos, conforme observou o arqueólogo, tem sido motivo de preocupação com a sua preservação do monumento que pertence à humanidade.
“Então, durante muito tempo, nós desenvolvemos atividades de educação patrimonial na área polarizada pelo Ingá E mais recentemente, eu participei da reunião promovida pelo governo do estado. O monumento vem sendo transformado em patrimônio natural e arqueológico do Brasil. Um monumento natural. É o coreto, já que se trata de um dos sítios arqueológicos mais importantes do Brasil conhecido mundialmente “, observou o cientista.
Sobre a provável origem das inscrições rupestres, Juvandi enfatizou que existem muitas teorias. Algumas com fundamento científico. Outras, difíceis de serem compreendidas.
“Tem a teoria dos fenício. Essa teoria aponta que os fenícios tiveram por aqui em tempos e memoriais, e teriam deixado, gravado nas rochas da Paraíba, o seu legado, a sua história. Tem uma teoria, uma tese levantada de extraterrestre, mas enfim, é só teoria “, observou.
A Itacoatiara do Ingá, conforme enfatizou Juvandi de Souza, é uma pedra que recebeu gravação nas rochas, e foi confeccionada por volta de 5.000, 6.000, 7.000 anos atrás, pelos antigos habitantes que viviam nessa região do que hoje nós chamamos de interior da Paraíba.
“E o processo de gravação, claro que para a gente hoje é bem simples. Mas o processo de gravação estava de que forma? Quer que eles usavam para gravar aquilo? Usavam uma rocha mais dura. Então, ali é um guinás, de grau que dura em torno de 4, 4 e pouco. Eles usavam três formas diferentes para gravar aqueles sulcos nas rochas.
O arqueólogo destacou que os autores das inscrições da Itacoatiara, usaram três técnicas diferentes para fazer as inscrições no paredão rochoso, principalmente nos painéis maiores, sendo elas, o picoteamento, o raspamento e o riscamento. Foram os grupos humanos locais que viviam por aqui há 5.000, 6.000, 7.000 anos, que gravaram aquilo ali. Esses grupos eram constituídos por indivíduos que viviam da caça, da pesca e da coleta.
“Então, foram os grupos humanos locais que viviam por aqui há 5.000, 6.000, 7.000 anos, que gravaram aquilo ali. Esses grupos eram constituídos por indivíduos que viviam da caça, da pesca e da coleta” explicou.
Algumas teorias, conforme enfatizou Juvandi de Souza, apontam para uma representação astronômica, enquanto outras sugerem que os símbolos tenham origem em culturas indígenas pré-históricas.
Alguns arqueólogos sugerem que o lugar seja um mapa astronômico, uma conexão direta com o céu antigo. Algumas figuras se alinham de forma assustadora com a costelação e a via lacta. A perfeição técnica com que as pedras foram talhadas, parece impossível para povos e civilizações antigas, que usavam apenas pedras e ossos, alimentando teorias de que poderiam ser marcas deixadas por uma civilização esquecida.
Um enigma silencioso. Que atravessa o tempo. Desperta curiosidade. E motiva pesquisas. As inscrições na Pedra do Ingá apresentam uma variedade de figuras que sugerem representações de animais, frutas, seres humanos e constelações, como a de Órion. Os sulcos são largos, com até 5 cm de largura e 8 mm de profundidade, e demonstram um polimento cuidadoso, indicando um trabalho meticuloso e intencional.
Além do painel principal, há outras áreas com inscrições, como o Painel Inferior, que cobre 2,5 metros quadrados no piso do lajedo, e o Painel Superior, localizado acima do painel vertical, com sinais dispersos e menos profundos.
Hipóteses indígenas
Alguns arqueólogos sugerem que as inscrições foram feitas por comunidades indígenas que habitavam a região há cerca de 6.000 anos. Essas comunidades teriam utilizado cinzéis de pedra para esculpir os sinais na rocha, possivelmente como parte de rituais ou registros simbólicos.
Teorías exógenas
Alguns pesquisadores propuseram origens exógenas para as inscrições. O catedrático Padre Inácio Rolim, no século XIX, foi um dos primeiros a sugerir uma origem fenícia, comparando os símbolos da Pedra do Ingá com caracteres da escrita fenícia. No início do século XX, a pesquisadora Fernanda Palmeira associou as inscrições tanto aos fenícios quanto à escrita demótica egípcia. Mais recentemente, o italiano Gabriele D’Annunzio Baraldi identificou 497 sinais na pedra e propôs que eles pertenciam à língua hitita, sugerindo que povos proto-hititas teriam vivido no Brasil entre 1374 e 1322 a.C.
Hipóteses extraterrestres
Teorias mais controversas envolvem a possibilidade de intervenção extraterrestre. Isso porque as inscrições contêm fórmulas de produção de energia quântica e combinações matemáticas relacionadas à distância entre a Terra e a Lua.
Diante da riqueza do local, o governo da Paraíba por meio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas)já iniciou o processo que vai transformar o local em Monumento Natural, assegurando proteção integral ao sítio arqueológico.
Uma equipe da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade, liderada pela secretária estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Rafaela Camaraense,já realizou uma visita técnica ao Sítio Arqueológico Itacoatiaras. A visita teve como propósito realizar um diagnóstico das necessidades estruturais e ambientais da área, estabelecendo as bases para estratégias de preservação do patrimônio arqueológico, valorização cultural e desenvolvimento sustentável da região, além de ouvir guias de turismo e população local.
Thiago Silva, gerente executivo de Áreas Protegidas, Biodiversidade e Gestão Costeira da Semas, destacou a importância desse processo para o sítio arqueológico, ressaltando sua individualidade pela presença dos dois biomas que convivem no local.
A Pedra do Ingá foi tombada como Monumento Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 30 de novembro de 1944, sendo o primeiro sítio arqueológico brasileiro a receber essa proteção. Apesar disso, o local já sofreu com vandalismo e destruição de pedras vizinhas na década de 1950 para pavimentação de ruas. Atualmente, o sítio conta com um prédio de apoio aos visitantes e um museu de História Natural, que abriga fósseis e utensílios líticos encontrados na região.
A Pedra permanece como um dos maiores enigmas arqueológicos do Brasil, desafiando pesquisadores e entusiastas a decifrar suas inscrições milenares. Seja como registro astronômico, expressão artística indígena ou vestígio de civilizações antigas, o monumento continua a fascinar e inspirar estudos multidisciplinares, mantendo viva a busca por respostas sobre nosso passado remoto.
Severino Lopes
PB Agora


