Ninguém precisa simpatizar com Silas Malafaia para reconhecer um dos maiores absurdos jurídicos registrados nesse país. Em que democracia um investigado criminal é informado sobre um inquérito por meio da grande mídia? Pior. Por uma entidade da grande mídia com estreita relação com juízes da Suprema Corte e com o Poder Executivo.
A coisa toda se perdeu nesse país. Desde o inquérito das fake news, tem-se normalizado um cenário de inquéritos sigilosos, juiz que é vítima-investigador-julgador, violação a devido processo, restrição à liberdade de expressão. E tudo em nome da democracia e do estado de direito. As palavras valem pouca coisa nesses tempos.
A grande mídia age como assessoria de imprensa das elites do judiciário e do executivo. Em que democracia o investigado é informado de inquéritos sigilosos por uma mídia que serve de assessoria de agentes do Estado? Isso é coisa de regime autocrata.
Malafaia é falastrão e agressivo. Mas como pode ter se tornado investigado em inquérito sigiloso por palavras? Como pode ser acusado de obstrução de justiça, coação do processo, organização criminosa e tentativa de abolir o estado só por palavras? Se não houver provas materiais de autoria, o que temos é pura perseguição para silenciamento de opositor.
Uma vez mais: se houver alguma prova material de crime cometido, que seja julgado e punido. Mas ser jogado em inquérito sigiloso e notificado pela imprensa por conta de discursos e palavras contra autoridades, é coisa de autocracia.
As coisas foram longe demais. Ninguém pode ser processado à parte do devido processo e com uso intimidatório da grande mídia para silenciamento. Quando as leis não valem de nada, sobram apenas perseguição e autocracia.
Anderson Paz