Uma viagem oficial cercada de coincidências e gastos elevados têm chamado a atenção em Serra Branca, no Cariri paraibano.
O prefeito Michel Alexandre (União) esteve em Brasília entre o fim de janeiro e o início de fevereiro deste ano, numa agenda que custou R$ 12.587,15 aos cofres do Tesouro Municipal.
Trocando em miúdos: dinheiro do povo humilde serrabranquense.
De acordo com dados do Sistema de Acompanhamento da Gestão dos Recursos da Sociedade (Sagres) do Tribunal de Conta do Estado da Paraíba (TCE-PB), foram R$ 5.628,37 em passagens aéreas no trecho João Pessoa/Brasília/João Pessoa e R$ 6.958,78 em hospedagem, totalizando a cifra que, para uma cidade de porte pequeno e população que enfrenta dificuldades econômicas, soa como um gasto nada modesto.
No entanto, o que mais chama a atenção não é apenas o valor.
O prefeito viajou na madrugada da sexta-feira (30 de janeiro) e retornou na segunda-feira (2 de fevereiro) — período que coincide exatamente com o fim de semana.
E é justamente aí que surgem as perguntas que ecoam nos bastidores políticos do Cariri: ‘o que um prefeito vai fazer em Brasília numa sexta-feira e retorna apenas na segunda-feira, se os ministérios, gabinetes e órgãos federais funcionam basicamente de segunda a sexta-feira?’
Normalmente, prefeitos que se deslocam à capital federal em busca de recursos, convênios ou audiências institucionais costumam cumprir agendas durante a semana, viajando na segunda-feira e retornando até a sexta.
No caso de Alexandre, o roteiro parece seguir uma lógica diferente.
Coincidência ou não, no domingo, 1º de fevereiro, ocorreu um dos jogos mais aguardados do futebol brasileiro: Corinthians x Flamengo, válido pela final da Supercopa dos Campeões.
E não é segredo para ninguém em Serra Branca que o prefeito é corintiano fanático, adepto declarado do famoso mantra da torcida paulista: “Aqui tem um bando de loucos, loucos por ti, Corinthians”.
Aliás, não seria a primeira vez que o gestor acompanha decisões do clube do coração.
Alexandre já havia marcado presença no Maracanã, no Rio de Janeiro, quando o Corinthians venceu o Vasco por 1 a 0 e conquistou o título da Copa do Brasil.
A coincidência de datas, no entanto, levanta questionamentos inevitáveis: ‘teria a viagem institucional sido usada para bancar um roteiro de lazer futebolístico na capital Federal?’
E, mais grave, com dinheiro público?
Outro ponto que chama atenção envolve a empresa responsável pela emissão das passagens e pela hospedagem.
Os pagamentos foram realizados à BRASTUR, agência de Campina Grande, que possui como uma de suas sócias-administradoras a cunhada de Enzo (presidente da SAF do Serra Branca Futebol Clube), empresário que é sócio de Ernildo Júnior, dono da Pixbet e o prefeito de fato de Serra Branca, pois Alexandre não toma nenhuma decisão administrativa importante sem o consentimento do padrinho.
A teia de relações pessoais e empresariais adiciona ainda mais tempero a uma história que já é, por si só, indigesta para o povo sofrido de Serra Branca
Diante do cenário, cresce a pressão para que órgãos de controle como o Ministério Público da Paraíba (MPPB), o Ministério Público de Contas (MPC) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PB) apurem se os recursos públicos foram realmente utilizados para compromissos administrativos — ou se acabaram servindo para financiar um passeio de luxo e um hobby futebolístico do gestor.
Para tentar justificar a ida a Brasília, depois que a população tomou consciência da viagem numa sexta-feira, às vésperas do jogo no estágio Mané Garrincha, o prefeito se apressou a gravar um vídeo e postar em suas redes sociais para dizer que foi em busca de recursos.
Mas não disse quais teriam sido esses recursos e para quais setores da gestão, tampouco disse o nome do, ou dos parlamentares que teriam destinados a verba.
Afinal, numa cidade onde o dinheiro público deveria ser tratado com extremo zelo, a pergunta que fica no ar é direta: ‘até que ponto a paixão por um clube pode custar caro demais para o bolso do povo de Serra Branca?’

