Nasci em Monteiro, no Cariri Paraibano, nos fundos da loja de tecidos de minha mãe. Ali, casa e trabalho eram praticamente a mesma coisa. A lembrança da infância está inseparavelmente ligada ao balcão, às prateleiras cheias de rolos de tecido e ao movimento constante da loja, que ditava o ritmo da vida familiar.
Desde cedo, eu e meus irmãos aprendemos a trabalhar. A loja não fechava para o almoço, e por isso nos revezávamos: enquanto uns se alimentavam, outros ficavam no atendimento, garantindo que o comércio permanecesse aberto. O sábado era o dia mais intenso, responsável por cerca de 60% a 70% do movimento semanal. Nesse dia, não havia negociação possível, todos trabalhávamos.
Durante a semana, porém, havia uma regra simples e rigorosa. Estudávamos em um turno e, se as notas iam bem, o outro turno era reservado aos deveres escolares e as brincadeiras de rua com os amigos. Não era necessário ir ajudar na loja quando não estava na escola, nesse sentido, funcionava como um prêmio.
Quando as notas não eram boas, a lógica se invertia. Um turno na escola, o outro na loja. Os deveres precisavam ser feitos ali mesmo, à vista de nossa mãe, entre um cliente e outro. Não havia separação entre estudo e trabalho, ambos faziam parte de um mesmo processo de formação.
Foi nesse contexto que, ainda menino, passei a estudar mais, talvez por preguiça , pois estudar era, também, uma forma de escapar do trabalho contínuo na loja. Acabei descobrindo cedo que estudar podia ser meu caminho de sobrevivência.
Com 15 anos de idade, deixei Monteiro. Fui estudar em João Pessoa, formei-me engenheiro e segui minha vida profissional. Curiosamente, já adulto, passei a fazer com intensidade aquilo que, na infância, eu tentava evitar: trabalhar muito, agora não mais por imposição, mas por decisão própria.
Hoje compreendo que aquela experiência precoce no comércio familiar não foi apenas trabalho infantil no sentido literal, mas uma escola de responsabilidade, disciplina e valor do esforço. A loja de tecidos foi, ao mesmo tempo, espaço de sobrevivência, aprendizado e ponto de partida. Entre o balcão e os livros, construiu-se uma trajetória que une educação, trabalho e mobilidade social, numa história comum a muitas famílias do interior nordestino, mas vivida por nós quatro irmãos de forma muito concreta, onde dois são engenheiros e dois comerciantes, todos bem sucedidos.
Carlos Batinga Chaves
OPIPOCO


