A recente atuação dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando na captura de um chefe de Estado estrangeiro neste ano de 2026, não deve ser lida apenas como a queda de um regime impopular, mas como um gravíssimo atentado à soberania nacional — um princípio que deveria ser inviolável.
Ao validarmos a intervenção bélica e a extração forçada de um presidente para ser julgado em solo estrangeiro, voltamos perigosamente à lógica colonialista e ignoramos as duras lições que a história nos deixou.
1 – O Espelho da História: De Noriega a Bagdá
A ação norte-americana na Venezuela não é inédita; é a repetição de um roteiro conhecido e falho. Em 1989, na Operação Justa Causa, os EUA invadiram o Panamá para capturar o ditador Manuel Noriega e levá-lo a julgamento na Flórida. O resultado imediato foi a morte de milhares de civis e uma instabilidade duradoura.
Mais tarde, em 2003 e 2011, as intervenções no Iraque e na Líbia sob o pretexto de “libertação” e “democracia” resultaram não em paz, mas em vácuos de poder preenchidos por extremismo, guerra civil e caos social. Atacar a soberania alheia sob o pretexto de “salvar” uma nação provou-se, historicamente, a maior falácia dos séculos XX e XXI. A ação de 2026 na Venezuela não liberta; apenas inaugura uma nova fase de incertezas
2 – O Precedente Perigoso para o Brasil
A pergunta que ecoa é inevitável: Se hoje a justificativa serve para a Venezuela, amanhã servirá para quem? Essa brecha no Direito Internacional coloca em risco a autonomia de qualquer nação, inclusive a do Brasil. Quando aceitamos que uma potência estrangeira se
arrogue o direito de sequestrar o chefe de outra República, rasgamos a Carta das Nações Unidas.
A Venezuela não é extensão territorial dos EUA. Problemas internos resolvem-se internamente. Aceitar o contrário é reviver a Doutrina Monroe do século XIX, onde a América Latina era vista meramente como quintal das potências do Norte.
3 – O Pragmatismo do Pós-Queda
É preciso frieza para analisar o cenário pós-Maduro: não haverá democracia instantânea (“instant democracy”). A história nos mostra que a queda abrupta de um regime via força externa, sem tempo hábil para uma reorganização cívica e institucional, tende a gerar o caos. O vácuo de poder provavelmente será preenchido por uma ditadura de espectro
oposto ou facções em guerra. Na prática, corre-se o risco de trocar apenas a cor da opressão.
Mudar o opressor não é fazer justiça. Ninguém, em sã consciência, defende regimes autoritários, mas a solução deve vir do povo, através de suas lutas e processos internos, e nunca pela força militar de uma potência que age como se o mundo fosse sua colônia.
4 – O Impacto Regional
A consequência imediata dessa intervenção será, muito provavelmente, uma guerra civil em um país que faz fronteira com o Brasil. Para nós, isso é desastroso. O impacto na economia, a crise migratória e a instabilidade política local — máxime quando estamos próximos de um ano eleitoral — criam um cenário de tempestade perfeita.
Conclusão: A Soberania Não se Negocia
Em pleno 2026, não podemos aceitar que países sejam tratados como protetorados. Repudio qualquer opressão estatal, mas repudio com igual veemência o imperialismo que usa a “liberdade” como pretexto para conquista.
Um verdadeiro absurdo!
Por Marcos Antônio Souto Maior Filho


