[ad_1]
Foto: Bruno RyferJúlia AlmeidaAtriz e produtora
O último capítulo de uma novela escrita por Manoel Carlos foi exibido há pouco mais de 11 anos, quando Em Família chegou ao fim. Contudo, Maneco, como o autor é chamado, e sua Helenas nunca saíram do imaginário popular e dos fãs de telenovelas – inclusive, da nova geração, que se diverte com memes nas redes sociais ou trava debates sobre a obra do autor.
Aos 92 anos, Maneco, que sofre da doença de Parkinson, é representado por sua filha, a atriz Júlia Almeida. À frente da produtora Boa Palavra, fundada para cuidar do legado do autor, Júlia tem organizado documentos, fotos, arquivos e roteiros do pai e, desde 2024, produz documentários sobre o universo peculiar do escritor – circunscrito especialmente ao bairro carioca do Leblon.
O mais recente, disponível no canal do YouTube da Boa Palavra, é As Helenas de Manoel Carlos, que vai abordar as nove Helenas que o escritor criou para suas telenovelas – a primeira foi em 1981, em Baila Comigo, interpretada pela atriz Lilian Lemmertz.
Quatro episódios já estão disponíveis. O inicial traz Regina Duarte – a atriz fez três Helenas – relembrando sobre sua personagem em Por Amor, de 1997. Junto dela, Gabriela Duarte, intérprete de Maria Eduarda, personagem essencial na trama em que a mãe abre mão de seu bebê para não ver a filha infeliz.
No segundo episódio, a atriz Maitê Proença discorre sobre a Helena de Felicidade, novela exibida originalmente em 1991. Os capítulos que trazem entrevistas com Julia Lermmetz e Christiane Torloni também já estão no ar.

Manoel Carlos em foto de 2000, quando ele escreveu a novela ‘Laços de Família’ Foto: André Lobo/Estadão
Em entrevista ao Estadão, respondida por e-mail, a pedido da atriz, Júlia fala sobre a saúde de Maneco. “Está fragilizado, com interação e mobilidade reduzidas”, diz. Ela pondera ainda sobre possíveis remakes das novelas criadas por Maneco. “A Boa Palavra aprovará projetos que honrem o autor e seu universo”, afirma.
Júlia não respondeu a duas perguntas relacionadas à TV Globo. Uma questionava sobre a ação que a Boa Palavra move contra a emissora questionando transparência nos pagamentos de direitos autorais sobre as obras de Manoel Carlos. A outra dizia respeito a uma suposta mágoa que o autor teria em relação a Globo depois que sua última novela foi exibida.
A atriz também não respondeu sobre como ela acha que Manoel retrataria a atual campanha de moradores do Leblon contra a especulação imobiliária no bairro – há prédios com faixas nas quais se pode ler frases como “o Leblon pede socorro” e “querem acabar com o Leblon”.
Leia a entrevista com Júlia Almeida:
Qual o estado de saúde atual de Manoel Carlos e qual a capacidade dele em entender e interagir com seu redor?
Meu pai tem doença de Parkinson em estágio avançado. Está fragilizado, com interação e mobilidade reduzidas. Recebe acompanhamento médico e de enfermagem 24 horas, além do cuidado e do carinho da minha mãe, Elisabety, de amigos íntimos e da nossa família.
Você está à frente da produtora Boa Palavra, que cuida do legado do Manoel Carlos. No seu entendimento, qual será sua missão e desafios para perpetuar e movimentar a obra do Maneco?
A missão da Boa Palavra é preservar a integridade da obra como um todo — organizar e conservar roteiros, arquivos audiovisuais, anotações e correspondências. Digitalizar e catalogar o acervo; autorizar usos que respeitem a voz e o universo criados por ele, e criar um diálogo com novos projetos entre a geração que já conhece o trabalho do autor e a nova geração.
Alguns desafios são: conciliar proteção autoral com viabilidade comercial sem abrir mão da qualidade; evitar ações oportunistas que deturpem a obra e o universo do Manoel Carlos; e aproximar as novas gerações sem reduzir o autor à fórmula.

Júlia Almeida vem organizando o material produzido pelo pai, o autor Manoel Carlos Foto: Bruno Ryfer
Atualmente, estamos vendo muitos remakes de telenovelas. Esse é um caminho? Esse tipo de produção agrada à família?
Remakes podem existir, desde que haja definição artística clara — uma releitura que acrescente sentido ao original, não apenas atualize cenários. No caso de um remake, a produtora Boa Palavra só o autorizará mediante participação editorial ou consultoria criativa, critérios de casting e roteiro definidos em conjunto, tendo direito a vetos prévios com relação a mudanças que esvaziem o espírito do texto ou da sinopse original. A Boa Palavra aprovará projetos que honrem o autor e seu universo.
A série ‘As Helenas do Maneco’, que você dirigiu, traz em seu primeiro episódio a atriz Regina Duarte, que tem total entendimento da obra do Maneco e da simbologia que as Helenas trazem. E, para você, quem são as Helenas?
Para mim, as Helenas são figuras centrais e recorrentes no universo do Manoel Carlos: mulheres universais, complexas e ambíguas. São âncoras emocionais das tramas, personagens que condensam conflitos íntimos e morais e funcionam como espelho das relações cotidianas. Por isso ressoam tanto no público.
Em ‘Baila Comigo’, a personagem Helena, interpretada por Lilian Lemmertz, guarda semelhanças, mas também muitas diferenças das demais Helenas. Ela é a Helena menos conhecida e a que é capaz de desfazer equívocos sobre essas mulheres tão emblemáticas nas obras do Maneco. Como pretende apresentá-la no documentário?
Vamos tratá-la como uma personagem singular, por meios dos depoimentos de Júlia Lemmertz.

Lilian Lemmertz como a primeira Helena de Manoel Carlos, na novela ‘Baila Comigo’ Foto: Reprodução/Acervo/TV Globo
Já quando fora do ar, Maneco foi acusado de ser elitista em suas novelas – e até mesmo racista. Em ‘Baila Comigo’, no entanto, Maneco abordou e denunciou o racismo por meio do personagem Otto Rodrigues, de Milton Gonçalves. E reservou ao personagem uma das cenas mais bonitas do último capítulo. Como Maneco encarou essas acusações e como desfazer essas impressões sobre ele?
Ele nunca fugiu de temas incômodos; seguia escrevendo e expondo tensões sociais. Lembro também do episódio de Laços de Família, quando cenas com menores de 18 anos (eu estava incluída) foram censuradas — ele respondeu, continuando a provocar debates. Portanto, não sinto necessidade de desfazer nenhuma ‘impressão’. A resposta está no conjunto da obra do Manoel Carlos como um todo, como ele pensava além do tempo, debatendo de forma ímpar, em crônicas, livros e em plena novela das 9, há vinte anos atrás, o que continuamos a debater até hoje – só que em mídias sociais.
Gabriela Duarte, que está no primeiro episódio, falando sobre Maria Eduarda, de ‘Por Amor’, diz que, em caso de uma Helena atual, não importava que ela fosse branca ou preta, mas que fosse forte e que tivesse a cara atual das mulheres de 50/60 anos. Considerando as mudanças que a teledramaturgia e a sociedade sofreram desde que Maneco saiu do ar, como seria Helena atual?
Na minha opinião, a Helena de hoje seria uma mulher de 50/60 anos, autônoma — independente de etnia — menos definida por papéis tradicionais, com escolhas profissionais e afetivas complexas, presença ativa na sociedade e contradições pessoais. Ela refletiria questões contemporâneas: carreira, saúde, redes sociais, ativismo e as múltiplas facetas da vida adulta.
[ad_2]
Source link

