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Com tecnologia, lixo vira lucro para Orizon
Com R$ 1 bi de receita, empresa constrói ecoparques de energia, gás natural, adubo e outros insumos e vê oportunidade de protagonismo do Brasil na COP-30
Foto: DivulgaçãoMilton PilãoPresidente da Orizon Valorização de Resíduos
Os ecoparques da Orizon são uma espécie de complexos industriais montados em torno do lixo. A empresa, que faturou quase R$ 1 bilhão no ano passado e é uma das poucas novatas da B3 a ter ações em alta nos últimos anos, trabalha no processamento de resíduos descartados e na produção de energia. Assim, em cada ecoparque há fábricas, construídas em torno do descarte, que produzem biogás a partir de lixo orgânico, matéria-prima para a indústria por meio da reciclagem, brita para construção civil, adubos provenientes de lodo de tratamento de esgoto, biomassa como combustível – e créditos de carbono.
Sozinha, a empresa processa 11% dos resíduos coletados no Brasil, o que equivale mais ou menos ao lixo de 40 milhões de pessoas em 12 Estados do País. Uma das maiores transformadoras de resíduos e geração de energia renovável da América Latina, a Orizon está em processo de crescimento acelerado e consolidação do setor.
Milton Pilão, CEO da empresa, diz ter grandes expectativas em relação à COP-30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que acontecerá em novembro, em Belém. Para ele, o fato de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter retirado o país do Acordo de Paris, só reforça a oportunidade de o Brasil se tornar protagonista do setor. “A posição do governo americano traz oportunidade para o Brasil assumir papel protagonista nessa agenda”, diz ele. “Temos todo o potencial para ser um grande provedor de soluções de mitigação de carbono para o mundo.”
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Como é a atuação da Orizon?
A Orizon se posiciona na cadeia de valorização do resíduo, ou seja, tudo feito após seu descarte. O lixo brasileiro é composto, aproximadamente, por 50% de material orgânico (basicamente comida), 30% de recicláveis e 20% inertes. Nas unidades da Orizon, há processos para valorizar essas três partes.
Quais são esses processos?
Na parte orgânica, o resíduo passa a sofrer decomposição anaeróbica, inerente ao contato com o ar. Se você fizer uma experiência na sua casa, colocando esse resíduo dentro de um saco de lixo e deixá-lo fechado, depois de um dia ele já está cheio de um gás chamado metano. O que a gente faz nos nossos ecoparques, em escalas gigantescas, é encapsular todo esse resíduo orgânico descartado e por meio de tubulações, processos tecnológicos de sucção com pressão e temperatura controladas, puxar e reutilizar esse gás na cadeia produtiva, com a produção de gás natural renovável. Na parte dos recicláveis, a gente tem dentro dos ecoparques indústrias que fazem a triagem mecanizada dos reciclados que não conseguiram ser separados na coleta seletiva e ficaram junto ao lixo que sai da nossa casa. Essas plantas conseguem, por meio de leitores óticos e sopradores, separar o que é reciclável e pode ser reutilizado: plástico, papelão e metais, que voltam como matéria-prima para a cadeia produtiva. Por fim, há o resíduo inerte, que é de construção civil. Por meio de processos industriais de hibridagem, eles são separados e transformados em brita, que pode ser reutilizada para a construção civil e obras viárias.
O setor não carece de leis, mas de implementação e execução prática dessas leis
Milton Pilão, CEO da Orizon
Nos últimos anos, políticas públicas buscaram criar mudanças setoriais, como o marco do saneamento, o plano nacional de resíduos sólidos, a lei dos créditos de carbono, do combustível do futuro… Essas leis deram o resultado esperado?
A gente brinca dizendo que nosso setor não carece de leis, mas de execução e implementação prática dessas leis. O marco do saneamento trouxe a obrigatoriedade do fechamento dos lixões. O Brasil gera 80 milhões de toneladas ano de resíduos domésticos, sendo que aproximadamente 30 milhões ainda vão para mais de 2,1 mil lixões. Já houve mais de 3 mil deles, mas todos deveriam ter sido fechados até agosto do ano passado. Ou seja, a regulação existe, mas atrasos ocorrem por N razões. O Brasil é um dos países com os maiores porcentuais de lixões em operação. O marco do combustível do futuro também é importante para a transição energética, como o biometano, seja nas indústrias ou na logística, pela substituição do gás fóssil ou do diesel por gás natural renovável. Foi um marco muito importante e já estamos vendo um encaminhamento positivo. Também estão sendo discutidos vários decretos de economia circular e logística reversa, que é outro assunto muito importante. A regulação tem avançado.
A entrada da Petrobras na área de combustível do futuro pode dar nova perspectiva a esse mercado?
Sim. A Petrobras tem em andamento uma oferta, a ser decidida em maio, de aquisição de quase 700 mil m³ por dia de gás natural renovável. O setor está se preparando com investimentos bilionários para suprir a essa demanda que virá da lei do combustível do futuro. O gás brasileiro é hoje basicamente fóssil. Por volta de 1% do gás natural utilizado no País é renovável. Tem muito mercado e muita demanda para a transição energética do gás, que será feita tanto para a indústria, que hoje tem uma oferta muito pequena de gás natural renovável, como para a logística. O Brasil hoje tem uma frota de quase 3,2 milhões de caminhões rodando com diesel, sendo que 25% desse combustível é importado. A gente pode substituir boa parte dessa frota para utilizar combustível renovável e biometano.
As empresas costumam reclamar da falta de infraestrutura para adoção do gás natural em larga escala. No caso do biometano, há o mesmo problema?
Os gasodutos estão conectados principalmente ao litoral brasileiro. O gás natural renovável é conectado a eles, mas também é vendido a outras regiões com o produto comprimido ou liquefeito. Comprimido, o gás é transportável por 200 ou 300 quilômetros (km) de distância a partir dos ecoparques e o GNL (gás natural liquefeito) pode viajar até 1,5 mil quilômetros ou ser exportado.
A Orizon cresceu de maneira acelerada nos últimos anos. Qual foi o principal desafio?
Teve várias razões para esse crescimento, mas um dos motivos mais importantes foi ter sido pioneira nas tecnologias de valorização de resíduos. Fomos a primeira empresa a falar que o lixo poderia ser utilizado como matéria-prima, por meio de implantação de tecnologia, o que não era muito visto ou priorizado aqui no País. Não inventamos a roda: copiamos o que é feito nos Estados Unidos e na Europa, há mais de 20 anos. Vimos essas tecnologias lá fora e as trouxemos para cá – foi a grande virada de chave. Desde nossa abertura de capital, em fevereiro de 2021, e a implantação dessas tecnologias em todos os ecoparques, a empresa deu saltos de crescimento, com receita proveniente da valorização dos resíduos, da venda de gás natural, energia elétrica, crédito de carbono, reciclados ou combustível derivado de resíduos.
Como está a frente dos créditos de carbono?
O crédito de carbono do aproveitamento de resíduos vem do encapsulamento do metano, que deixa de ir para a atmosfera. Aliás, a Orizon foi a primeira empresa a ter projeto de crédito de carbono certificado na ONU. O metano é responsável por aproximadamente 3% das emissões globais de gás do efeito estufa. Mas, quando valorizamos o resíduo, temos o potencial de mitigar quase 20% das emissões na cadeia produtiva.
Por quê?
Uma coisa é eu não deixar o metano ir para a atmosfera. Outra é transformar o metano em gás natural renovável, que vai para a indústria substituir o combustível fóssil. Também vale para o reciclado, que substitui a matéria-prima virgem. E o fertilizante orgânico, que a gente faz também do lixo e substitui o insumo importado ou feito de fonte fóssil.
Como é fabricado esse fertilizante?
Ele é feito à base de lodo. Hoje, os aterros sanitários recebem lodo de estações de tratamento de água e esgoto, que têm tido impulso muito forte com privatizações e concessões. Ainda que o tratamento no esgoto esteja crescendo, há um déficit muito grande no País. Antigamente, a gente aterrava o lodo proveniente do tratamento de esgotos junto aos resíduos orgânicos. Temos agora um processo industrial em que, por meio de uma tecnologia de compostagem, é transformado em fertilizante verde.

Usina de Purificação de Biometano I Ecoparque Paulínia Foto: Orizon/Divulgação
São muitas frentes de novos negócios, não?
É isso mesmo. O lixo tem diversas opcionalidades e adicionalidades para ser transformado em matéria-prima, por meio de diferentes tipos de tecnologia. É possível, por exemplo, transformar parte do reciclado em nafta, e trazê-lo de volta como combustível para caldeiras, como biomassa. Óbvio que necessita de tecnologia para transformar essa biomassa num produto, mas é isso que a gente faz dentro de nossos ecoparques. Em cada um deles, há um hub de indústrias em volta do aterro para que esse resíduo seja reaproveitado ao máximo e só o rejeito no final acaba sendo aterrado.
Há uma demanda por consolidação desse setor no Brasil e na América Latina? Como está a demanda da Orizon por tecnologia e investimento?
Usamos vários instrumentos de financiamento disponíveis para projetos renováveis, como linhas do BNDES, do BNB e debêntures verdes incentivadas. São financiamentos com algum incentivo tributário, que diminuem o custo de captação, para fazer frente a todos os investimentos da companhia. Cada fábrica nova gera resultado para a companhia e abre espaço para uma nova linha de financiamento.
Essa vai ser a primeira COP depois que Donald Trump reassumiu a presidência dos Estados Unidos e tirou o país do Acordo de Paris. O sr. acredita que a COP perde o impacto por essa redução da importância dada ao tema sustentabilidade?
Gosto de sempre enxergar o lado cheio do copo. A posição do governo americano traz uma oportunidade para o Brasil assumir papel protagonista nessa agenda. Temos todo o potencial para ser um grande provedor de soluções de mitigação de carbono para o mundo. Por outro lado, vários Estados americanos têm mantido sua autonomia em relação aos planos de mitigação e continuam fortes principalmente no mercado voluntário, no qual a gente vende boa parte do nosso crédito de carbono. Também há a oportunidade de acelerar as agendas internas, como a lei de regulamentação do carbono no mercado regulado, que já foi aprovada e está aguardando a regulamentação. Esperamos que essa regulamentação seja acelerada. Há diversos países querendo adquirir o nosso carbono e vendemos no mercado voluntário para empresas, que o compram de maneira individual para mitigar seu impacto. Mas o mercado regulado é gigantesco e não participamos porque estamos aguardando a regulamentação no mercado brasileiro.
Há vários países querendo comprar crédito de carbono e a gente não consegue acessar esses mercados enquanto a lei não for regulamentada
Milton Pilão, CEO da Orizon
O que acontecerá quando for regulamentado?
Vamos poder participar das mitigações por países. Há várias nações querendo comprar o crédito de carbono e a gente não consegue acessar esse mercado enquanto a lei não é regulamentada. Ao trazer novos recursos, com o acesso a novos mercados, consigo trazer receitas e é possível girar a roda do investimento para acelerar ainda mais o investimento de mitigação de resíduos.
O sr. vê uma grande participação popular na COP?
Posso estar sendo otimista, mas vai ter uma participação popular forte. Já participei de algumas COPs lá fora e vi o tamanho da estrutura e o mundo de gente presente nesses eventos. Vai ter a mesma pegada no Brasil. A população deve participar, principalmente quando chegar mais perto e esse tema ficar mais quente. O tema ambiental passou a fazer parte da mesa do brasileiro.
Como será a participação da Orizon na COP?
O principal tema que a gente pretende levar é a importância da mitigação do metano, que sai do resíduo brasileiro. O metano é considerado um gás super poluente, por ter um potencial de aquecimento maior, mas uma vida mais curta. Para a agenda climática, a gente precisa priorizar a mitigação dos super poluentes. Aí entra o papel dos resíduos.
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