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    Lar»CULTURA & ENTRETENIMENTO»Natal: Por que uma festa tão bonita tem tanta gente deprimida?
    CULTURA & ENTRETENIMENTO

    Natal: Por que uma festa tão bonita tem tanta gente deprimida?

    adminPor admin21 de dezembro de 2025Nenhum comentário5 minutos de leitura0 Visualizações
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    Você já pensou a origem da resistência de tanta gente ao Natal? Por que uma festa bonita tem tanta gente deprimida? Escrevo de longe, no frio das Ilhas Britânicas. Olho pela janela e tento entender a resistência ao evento aguardado por uns e detestado por outros.

    Começo pelas “ideias fora do lugar”, a expressão que um intelectual criou sobre outro tema. Natal deve ser frio, com neve. A tradição mostra José e Maria procurando um lugar abrigado, mesmo sendo uma estrebaria. É noite gelada na Bíblia e no Hemisfério Norte. Aqui? Um calor forte que inviabiliza a roupa do Papai Noel com suas borlas de veludo. A comida? Pesada ao extremo. A crise aumenta com a concentração de pessoas dentro de uma casa. O calor brasileiro é antinatalino e o imaginário da Natividade pertence à neve. Filmes e canções insistem nos flocos e nós vivemos abaixo do Equador. Nos cartões da data, as meias sobre a lareira e o fogo acolhedor. Nosso real: calor insuportável. Imaginário colonizado em Fahrenheit; realidade em Celsius. Resultado: ideias fora do lugar – e suor em pororocas rebeldes.

    A segunda questão fala das comidas. Quem pode imagina peru, chester e tender. O arroz: adornado com as passas que nasceram das “vinhas da ira” e dividem a família tanto quanto lulismo ou bolsonarismo. Também comparecem pernis assados de forma elaborada onde houver renda para isso. Panetones decoram tudo. Pense bem: em qual outra data você faz os mesmos pratos? Quando o arroz com passas e o tender estão na sua mesa dominical? A resposta da maioria será: nunca. Se a comida é muito desejada (eu amo receitas de Natal), por que ela nunca volta? Durante o ano, de forma livre, as famílias recebem com churrasco, mais eventualmente feijoada. No Natal existe um rito culinário que parece mais um liturgia do que um desejo. Não tenho um bom lugar de fala: amo ceias natalinas. Fica o questionamento: por que o Brasil do churrasco e da picanha se entrega ao peru e às passas na data de Jesus?

    ‘Happy Christmas’, de Johansen Viggo (1891). ‘Se sua avó é importante, visite-a em qualquer data e não reserve o Natal como zona de segurança para eximir sua culpa’ Foto: Wikimedia Commons

    Falei do cenário (tempo e comida). Falta o elenco. Natal implica, muitas vezes, família ampliada. Você ama seu pai e sua mãe, talvez seus irmãos. Eles se casaram e a expansão pode trazer instabilidade. Festa inclusiva, muita gente convida o irmão da cunhada e o primo da madrasta. A não ser que os fundos sejam infinitos e a mão de obra abundante (o que é incomum na data), haverá divisão de trabalhos, pratos e cuidados. Alguém fará mais e isso é um motivo de algum atrito. Há quem chegue livre como um beija-flor, apenas querendo pousar seu delicado biquinho em tudo que os outros pagaram e fizeram. São pessoas etéreas que causam fofocas. Há os que fizeram muito e pagaram muito: costumam ser pesados e cobram de todos. O elenco é um desafio.

    Cabe a mesma pergunta sobre os pratos para o elenco. Aquelas pessoas que enchem sua casa são as pessoas com quem você realmente quer estar? Calor estranho, pratos exóticos e convidados alienígenas, combinados, podem criar uma peça desafiadora de ser interpretada. Seria já um enorme obstáculo, mas acrescento o enredo natalino.

    Enredo? Festa religiosa entre pessoas que raramente o são. Celebração do Deus da paz entre famílias cindidas pela política. Alegria infantil em famílias que possuem cada vez menos crianças e que, hoje, preferem as telas à euforia do presépio. O enredo é complexo, quase escrito, diria Macbeth, “por um autor medíocre”.

    Basta? Dívidas pela festa, melancolia da infância perdida, memórias dolorosas de avós e pais que partiram, alguém se passando na bebida, mesas sempre insuficientes para tantos convidados… Falta algo? Não se esqueça da trilha sonora, de Simone a Mariah Carrey, com toques da música mais melancólica que só um austríaco poderia ter pensado: Noite Feliz!

    Fiz o diagnóstico, injusto, aliás: eu amo o Natal. Mas sei que muitos sentem peso na data. Gostaria de lavrar sua carta de alforria. Permita-se parar de passar com quem não quer, comer o que não deseja e celebrar o que lhe escapa ao sentido. Selecione quem vale a pena, coma o que desejar e se entregue a um momento de paz no fim do ano. “Ah, mas pode ser o último Natal que vovó está viva.” Se sua avó é importante, visite-a em qualquer data e não reserve o Natal como zona de segurança para eximir sua culpa. Se você a ama, viaje com ela para longe. Talvez ela também esteja cansada dos natais familiares. Liberte-se. A vida passa rápido. O arrependimento chega logo. Deixe de cumprir papéis em que você não acredita. E os parentes? Falarão mal de você – presente ou ausente. Seja livre e se entregue ao seu desejo. “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós.” É esta a esperança real. Noite feliz. Para quem? Para quem tiver a coragem de ajustar o roteiro ao próprio coração. Essa é a minha aposta e a minha esperança. Celebre sua alegria e seu afeto com coerência. O problema não está na festa, todavia nas suas escolhas. Lembre-se: Herodes estava na festa luxuosa, mas o milagre acontecia em uma estrebaria simples. Feliz Natal!

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