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Representatividade negra, protagonismo feminino e novos olhares consolidam um novo capítulo do audiovisual nacional Foto: Divulgação Petrobras
Após 30 anos de muitas batalhas, idas e vindas e preparação, o longa Malês, dirigido por Antônio Pitanga, chegou aos cinemas brasileiros em outubro de 2025. O filme conta a história da Revolta dos Malês, que ocorreu em 1835, em Salvador (BA), e ficou conhecida como a maior insurreição pela liberdade provocada por escravos no País.
A realização do filme, que tem patrocínio da Petrobras Cultural – além do apoio de empresas públicas e privadas e recursos da Agência Nacional do Cinema (Ancine) -, é um marco no cinema brasileiro, um sinal de amadurecimento e de uma maior diversidade dentro da indústria audiovisual.
“Com Malês, e outros filmes, temos a oportunidade de contar a história que muitos brasileiros não conhecem, descortinar o olhar de novas plateias para novas questões. O cinema é uma ferramenta valiosa para que a gente possa entender a força da nossa cultura e diversidade”, disse Pitanga, que além de dirigir o longa, interpreta Pacífico Licutan, um dos líderes da revolta.
Pitanga afirma que um dos pontos mais relevantes de Malês é mostrar que os negros não foram somente vítimas, mas também agentes ativos, vencedores e responsáveis pela criação de um País melhor. “O cinema tem que ser maior que os estereótipos. Posso fazer uma relação com a minha própria história e garantir que o cinema me deu a cidadania, o cinema me deu o passaporte para um futuro”, afirma Pitanga. “Ao longo da história, nosso cinema tem mostrado a resistência do povo negro por meio das artes. Mas, como sou um baiano pidão, quero ver agora negros e negras em postos estratégicos de decisão, com a caneta nas mãos”, completa.
Para o ator Silvio Guindane, que esteve em Como Nascem os Anjos, dirigido por Murilo Salles, e, atualmente, está rodando o filme Crisálida, a evolução da diversidade no cinema brasileiro se dá por meio de figuras como Antônio Pitanga e Zezé Mota.
“Historicamente, nosso cinema representava um olhar da elite branca. Mas Antônio Pitanga e Zezé Mota fizeram com que o negro saísse do lugar de subserviência no cinema. As interpretações de Pitanga (em Ganga Zumba, em 1963) e Zezé Mota (em Xica da Silva, em 1976) – ambos os filmes dirigidos por Cacá Diegues – já apresentam o negro em um lugar de não subserviência e com interpretações poderosas. Eles colocaram os homens e mulheres pretas em lugares pertinentes do nosso áudio visual”, diz. “Do ponto de vista da diversidade, evoluímos. Minha história mostra isso. Era um jovem de 12 anos quando fiz meu primeiro filme (Como Nascem os Anjos). Eu era um menino preto da Baixada Fluminense, de família simples… Mas o cinema meu deu uma perspectiva. Agora, o cinema se constrói em paralelo com a sociedade. Com mais educação, estaremos mais presentes e mais representados no cinema e em outras áreas da cultura”, completa.
AS MULHERES.
Mas vamos retroceder 30 anos – para aquele tempo em que Malês apenas começava a ser gestado. Neste período, o cinema nacional iniciava sua retomada com a estreia de Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (filme lançado em 1995, com o patrocínio da Petrobrás – que também patrocinou sem relançamento em 2025). O longa, dirigido por Carla Camurati, já surgia como um exemplo da diversidade no audiovisual brasileiro. “Carlota foi um filme basicamente feito por mulheres. Mulheres na direção, roteiro, produção, distribuição…Um filme que já tratava de questões voltadas à diversidade – tanto do ponto de vista de gênero como de raça”, lembra Carla Camurati.
“De Carlota para cá, o cinema vem conseguindo ampliar a quantidade e a diversidade de olhares, linguagens e assuntos. Acho que o cinema brasileiro está em um momento muito melhor”, diz Carla.
“Agora, o desafio da indústria do cinema e do País é pegar essa potência criativa e superar as desigualdades de oportunidade. Ainda vivemos em um país desigual, e no cinema não é diferente. Temos que trabalhar para reequilibrar as oportunidades – e isso não será feito com bravatas”, completa.
Já a diretora Laís Bodanzky, de filmes como Bicho de Sete Cabeças e As Melhores Coisas do Mundo, afirma que o tema da diversidade “pertence a sociedade como um todo”, mas que o “cinema encabeça essa questão como um sinal de alerta”. “É preciso que o cinema estimule o que o Brasil tem de melhor, nossa diversidade e suas muitas expressões culturais. Nossa beleza está nesta salada de raças”, fala Laís.
Ela lembra que em 2016 uma pesquisa divulgada pela Ancine apontou que apenas 17% de mais de 2500 filmes analisados tinham sido dirigidos por mulheres. De 1.836 roteiros produzidos, somente 21% haviam sido assinados por mulheres, que ocupavam só 8% dos cargos de direção de fotografia, ainda de acordo com aquela pesquisa. “Esse cenário causou espanto. A participação de mulheres pretas, por exemplo, era de zero por cento. Essa fotografia não representava, e não representa, o que é a sociedade brasileira”, disse.
De acordo com o último Anuário do Audiovisual Brasileiro, lançado pela Ancine em 2024, a realidade das mulheres no cinema avançou em alguns aspectos. A pesquisa mostrou que na ocasião existia 42% de participação feminina no setor – e que as mulheres representavam a maioria nas atividades de exibição (58%) e distribuição (54%). Na direção de longas, porém, a realidade não se alterou, apenas 17% dos filmes e séries foram assinadas por mulheres.
“A diversidade aumentou um pouco. Ainda estamos no começo, ainda é um processo tímido, mas já avançamos. Existe um aumento da presença de mulheres nas narrativas, aumento de mulheres mais velhas, mulheres pretas… Esse é um espaço que deve corresponder a vida real. Além do mais, existe uma demanda do público por conhecer essas histórias”, conta Laís.
Na mesma linha de pensamento vem a atriz e diretora Leandra Leal, que, entre outros trabalhos, dirigiu os documentários Divinas Divas e Nada A Fazer. “Avançamos em termos de diversidade no cinema, mas falta muito, falta constância nos editais, algo que dê mais instrumentos para pequenas e médias produtoras. Mas é preciso dizer que as políticas públicas têm dado resultado. Veja quantos filmes ótimos brasileiros foram lançados recentemente – e que tem bons resultado em termos de bilheteria”, aponta.
Para Leandra, o público brasileiro sempre foi aberto à diversidade. “O que falta é o elo de como esses filmes irão chegar ao público. Existe um gargalo na distribuição, exibição e divulgação, mas o filme que fura essa bolha faz bilheteria. O brasileiro é aberto e receptivo a se ver na tela”, diz Leandra.
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