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Agora que o Globo de Ouro recuperou seu prestígio e voltou a ser vitrine para o Oscar, a tríplice indicação de O Agente Secreto – melhor filme de drama, melhor filme internacional e melhor ator/Wagner Moura – com certeza agrega à campanha do filme de Kleber Mendonça Filho para os prêmios da Academia de Hollywood, que venceu mais uma etapa importante nesta terça-feira, 16, ao entrar nas shortlists do Oscar, em Melhor Filme Internacional e na categoria inédita de Melhor Escalação de Elenco.
O Agente possui grandes cenas que, desde logo, podem ser incluídas numa antologia do cinema brasileiro – o carnaval de rua, a discussão no restaurante. Possui também detalhes que podem parecer desconcertantes – a perna cabeluda, o gato de duas cabeças. Umas e outros articulam-se num discurso complexo sobre o Brasil para chegar ao desfecho sobre o qual algumas pessoas – quantas? – têm dúvidas. Não é bem o caso de perguntar-se ‘o que significa?’ Mas ‘você gosta?’ Como se esse final não fosse coerente, e até esperançoso, sobre o que o autor até então vinha dizendo sobre seus personagens, e o País.
Aos 57 anos, Kleber já é um veterano do cinema brasileiro e mundial. Em Cannes, já bate ponto. Com cinco longas e uma carteira de curtas, acumula prêmios e prestígio. Talvez não houvesse o Agente se ele não tivesse feito antes o ensaístico Retratos Fantasmas. Um filme sobre a sua paixão pelo cinema. O projecionista, o cine São Luiz, o Centro Velho do Recife. Muita coisa que já está em Retratos volta com mais potência no Agente.

Wagner Moura em O Agente Secreto, destaque do cinema nacional em
2025 Foto: Divulgação Petrobras
O filme começa no carnaval de 1977 e já com uma imagem perturbadora quando Marcelo (Wagner Moura) chega no sua fusca ao posto de gasolina, na estrada. Aquilo ali, semi-oculto por folhas de jornais, é um cadáver? E os jornais estão ali para ocultar ou proteger dos ataques de cães e urubus? A ideia de ‘proteger’ atravessa o filme, e a personagem de Maria Fernanda Cândido, ao providenciar um novo passaporte para Marcelo, fala não apenas em jeitinho brasileiro, mas em protegê-lo do Brasil.
Nas diferentes épocas que o filme retrata, Marcelo e a mulher integraram a resistência à ditadura cívico/militar. No ano específico em que se passa a história, 1977, ele volta ao Recife para tentar reunir informações sobre sua mãe, e mais tarde será seu filho, no cinema de rua transformado em Banco de Sangue, que receberá informações sobre ele.
A linha temporal do filme atravessa décadas e gerações. Wagner interpreta Armando, Marcelo e Fernando. Boa parte da trama mais ‘secreta’ – para conseguir o passaporte, por exemplo – passa pela cabine do São Luiz, onde o projecionista não é somente uma reminiscência de Retratos Fantasmas. Ele é pai da companheira de Marcelo, dublê de professor universitário e pesquisador científico, e avô. Como já observou Inácio Araújo, como o gato de duas cabeças, o filme olha para o passado como para o presente.
Não é exatamente um filme sobre a ditadura – como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, adaptado do livro de Marcelo Rubens Paiva, embora ela se faça presente, e por meio de seus braços civil e militar. A briga no restaurante expõe como o empresário de São Paulo e seu filho canalha estão querendo se apossar de uma pesquisa de Marcelo na universidade e a repressão é encarnada por um ex-militar (percebem a implicação?) que virou sicário e age conjuntamente com o filho.
Em suas diferentes instâncias, O Agente Secreto relaciona pais e filhos, embora também não seja exatamente sobre família, embora ela esteja ali. É um filme sobre violência, a começar pelo cadáver anônimo – e outros que vão atravessar o relato. Na sequência, a polícia encontra o tubarão com a perna decepada. Os policiais estão envolvidos numa rede de assassinatos. Jogam a perna da mesma ponte onde um cadáver já foi jogado. A perna tem de sumir para evitar investigações aprofundadas que poderão levar aos corpos jogados no rio. Mas a perna ganha o noticiário e vira lenda urbana que ataca no parque no Centro do Recife, transformado na Sodoma e Gomorra da orgia momesca.

Tânia Maria, a Dona Sebastiana de ‘O Agente Secreto’ Foto: Victor Jucá/Divulgação
Kleber mistura tudo, o horror da ditadura e a corrupção do poder econômico e institucional, para revelar ’um’ Brasil, não ‘o’. Os sicários discutem o valor do seu trabalho. Quanto custa uma vida humana? Mas o filme tem também a pensão de Dona Sebastiana, que acolhe os refugiados e, de certa forma, é um contraponto a toda a barbárie que O Agente Secreto apresenta. Dona Sebastiana, para permanecer no tema ‘família’, é matriarca. Coloca um monte de gente sob sua asa protetora. Como ela mesma diz, gosta de dar logo o serviço. Coloca uma música para espantar a tristeza e aproxima Marcelo da dentista Hermila Guedes, com quem, numa sequência seguinte, ele já está na cama.
Quem conhece o cinema do autor – O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau – sabe que Kleber tem prazer em filmar o sexo como um dos elementos definidores da formação da identidade brasileira. Talvez seja um problema numa eventual indicação do filme para o Oscar. Apesar das mudanças, a Academia ainda resiste à abordagem franca do sexo que existe em O Agente Secreto. Tudo isso compõe um relato coerente do ponto de vista dos temas, que se articulam num discurso sólido. O final fica em aberto – o que fará o médico, filho de Marcelo, ao saber toda a verdade? E verdade sobre o quê? Olha o spoiler. Não compromete acrescentar que uma coisa é saber, outra é agir. Ele agirá?
Tem mais, e não é só uma questão de forma. Kleber foi crítico, antes de se tornar cineasta. A paixão do cinema atravessa sua vida e obra. Faz filmes, como já disseram a Cahiers du Cinéma e o Le Monde, no perfil que lhe dedicou – o filme estreia dia 17 na França -, ao mesmo tempo exigentes e populares. Quando ele integra, por exemplo, o Tubarão de Steven Spielberg, de 1975 – ou a comédia de ação de Philippe de Broca, com Jean-Paul Belmondo, Le Magnifique, de 1973 – não é só como homenagem, ou referência para definir a época. O cinema dele possui essa euforia de filmar, de misturar gêneros, de experimentar. Pois Kleber é pós-godardiano. Foi marcado pelo autor francês que, mais que qualquer outro, transformou a metalinguagem numa forma de arte. No cinema, é sempre possível brincar com formas, gêneros, por mais sério que seja o assunto. É a lição número 1 da Nouvelle-Vague, que já dura (quase) 70 anos.
Em sua avaliação do Festival de Cannes – Report from Cannes -, a edição de verão da revista britânica Sight and Sound crava que O Agente Secreto poderia muito bem ter vencido o evento deste ano, não fossem certas particularidades. Juliette Binoche como presidente do júri e a presença de Jafar Panahi, acompanhando pela primeira vez um filme dele – Foi Apenas Um Acidente -, após anos de reclusão no Irã.
Se… Se… Não importam as condicionantes. O Agente Secreto é um grande filme, a despeito de Palma de Ouro, de Oscar. O melhor filme do ano? Seu currículo de premiações é impressionante. Quatro prêmios em Cannes – Fipresci, melhor direção e ator/Wagner Moura para o júri oficial, o Art et Essai, atribuído por distribuidores independentes -, todas as indicações e vitórias em prêmios da crítica nos EUA, novas indicações para o Globo de Ouro, mais um mundaréu de troféus mundo afora. A pré-indicação, concretizada, com certeza turbinará a performance de O Agente Secreto nas bilheterias do Brasil, onde o filme já foi visto por mais de 1 milhão de espectadores.
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